Estudo alerta para impactos do uso de telas em crianças menores de 2 anos
Revisão sistemática aponta associação entre exposição frequente a celulares, tablets e televisores e dificuldades no desenvolvimento da linguagem, cognição, sono e habilidades motoras
Por Vinicius Nunes De Andrade
Publicado em 17/08/2026 09:01
Tecnologia

O uso frequente de celulares, tablets e televisores por crianças menores de 2 anos pode estar associado a impactos em diferentes áreas do desenvolvimento infantil. É o que aponta uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores da Inglaterra e publicada em junho, que reuniu estudos sobre a exposição precoce a dispositivos eletrônicos.

Segundo a análise, o problema não está apenas na quantidade de tempo diante das telas, mas também no que esse uso substitui na rotina da criança. Brincadeiras, conversas, contato visual, interação com familiares e exploração do ambiente são experiências consideradas fundamentais durante os primeiros anos de vida.

A reportagem foi publicada pela Superinteressante, com informações da Agência Einstein, e destaca que a exposição frequente e rotineira nos primeiros dois anos está associada a atrasos na linguagem e no desenvolvimento cognitivo e motor, além de alterações do sono, obesidade, problemas de visão e dificuldades de socialização.

O que as telas podem substituir no desenvolvimento infantil

Durante os primeiros mil dias de vida, o cérebro passa por um período de desenvolvimento acelerado. É justamente nessa fase que a criança começa a desenvolver habilidades como linguagem, coordenação motora, vínculo afetivo e capacidade de lidar com as próprias emoções.

De acordo com especialistas ouvidos pela Agência Einstein, a interação com adultos é essencial nesse processo. Bebês aprendem observando expressões faciais, ouvindo a fala, imitando gestos e participando de situações do cotidiano.

Quando a tela ocupa esse espaço de forma frequente, a criança pode perder parte dessas experiências. A revisão relaciona a exposição precoce e habitual a dificuldades em áreas como linguagem, cognição, desenvolvimento motor e interação social.

O psiquiatra Thiago Pedrosa, especialista em infância e adolescência do Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta que a discussão deve ir além do número de horas diante dos aparelhos. Para ele, é necessário observar qual função a tela está desempenhando na rotina e o que ela está substituindo.

Exposição a telas começa cedo

Os dados reunidos na revisão também chamam atenção para a idade em que o contato com os dispositivos começa.

Mais da metade das crianças já teria acesso a telas por volta dos 12 meses de idade, enquanto mais de um terço estaria exposto aos aparelhos aos 6 meses. Aos 2 anos, praticamente todas já teriam contato diário com algum tipo de dispositivo eletrônico.

O estudo aponta ainda que 9,5% das crianças analisadas chegam a passar quatro horas por dia diante das telas, enquanto 20% fazem esse uso sem supervisão dos pais.

Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar a exposição a telas nessa faixa etária. Segundo o especialista ouvido pela Agência Einstein, essa recomendação está relacionada justamente ao ritmo acelerado de desenvolvimento que ocorre nos primeiros anos.

A preocupação envolve não apenas possíveis efeitos sobre a aprendizagem, mas também o sono, a visão, a atividade física e o desenvolvimento emocional.

A revisão, no entanto, não estabelece um limite seguro de exposição capaz de ser aplicado a todas as situações. Os pesquisadores analisaram principalmente padrões de uso frequente, prolongado e rotineiro e não conseguem afirmar que toda exposição ocasional tenha o mesmo efeito.

Como reduzir o uso de telas

Para os especialistas, simplesmente proibir os dispositivos pode não ser suficiente. O primeiro passo é entender por que a criança está usando a tela e em quais momentos ela passou a fazer parte da rotina.

Entre as alternativas estão permitir que o bebê explore ambientes seguros, oferecer livros e objetos de diferentes texturas, brincar, ouvir música e participar das atividades cotidianas da família.

Até mesmo momentos de tédio podem ser importantes. Segundo Thiago Pedrosa, eles permitem que a criança desenvolva criatividade, explore o próprio corpo, invente brincadeiras e aprenda gradualmente a lidar com frustrações e a se autorregular.

A mudança de hábitos também envolve os adultos. O especialista recomenda que pais e cuidadores observem o próprio uso do celular e procurem preservar momentos de interação com os filhos, como refeições e períodos dedicados exclusivamente às brincadeiras.

Ainda não se sabe se os efeitos são permanentes

Apesar das associações observadas nos estudos, os pesquisadores ainda não conseguem afirmar que os possíveis prejuízos provocados pela exposição precoce às telas sejam permanentes.

A revisão também não permite determinar um limite universal de tempo que seja seguro para todas as crianças. Fatores como o contexto, o tipo de conteúdo, a presença dos pais e o que a tela substitui podem fazer diferença.

A principal recomendação, portanto, é reduzir a exposição direta, frequente e intencional aos dispositivos durante os primeiros anos de vida, priorizando as interações e experiências que contribuem para o desenvolvimento infantil.

Fonte: Superinteressante / Agência Einstein.

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